Uma Ética Para O Inverno: Ética Cristã Em Tempos De Moder

R$39,90

ISBN:9788592509927

É Kierkegaard que André Farias vem situar, em posição de interlocutor, para tematizar uma maneira de viver o inverno. Tal escolha pode surpreender. Kierkegaard é o homem da interioridade, um ser solitário, mal adaptado à sua época, deslocado, como se o mundo no qual vivia lhe parecesse sempre uma terra um pouco estrangeira. Ora, é justamente isso que confere a Kierkegaard autoridade: essa maneira de experimentar até o mais profundo dele mesmo, aquilo que está fora do lugar, aquilo que não se encaixa muito bem, aquilo que cria tensões, aquilo que apresenta falhas. Não para satisfazer-se, mas para fazer da existência uma tarefa, um esforço para viver em verdade. Kierkegaard sustentará em todo o tempo que a verdade é aquilo que não se pode encontrar senão desfalecendo-se sobre ela. A verdade não é o que se pode armazenar em um todo coerente. Ela é aquilo que fratura os saberes constituídos e as lógicas da totalidade. De uma determinada maneira, Kierkegaard é inatual no sentido de que não está adaptado ao seu tempo, de que não está totalmente identificado à sua época nem aos seus ideais. Justamente por isso que lhe é permitido pensar inusitadamente aquilo que será o seu grande tema, sua grande questão: como tornar-se um contemporâneo? Logo que ele coloca essa questão, o filósofo Giorgio Agamben nota que o verdadeiro contemporâneo, aquele que pertence ao seu tempo, “é aquele que não coincide perfeitamente com sua época e nem adere às suas pretensões” e que, por esta razão, paradoxalmente, “está mais apto do que os outros a distinguir e a apreender o seu tempo” (“Qu’est-ce que le contemporain ?”). Kierkegaard caracteriza certamente esta maneira de ser plenamente no tempo por uma posição subjetiva da distância. Contudo, o que assimila o contemporâneo autêntico? Agamben responde que “todos os tempos são obscuros para aqueles que provam a contemporaneidade”. E é por isso que ele continua: “Só pode dizer-se contemporâneo aquele que não se deixa cegar pelas luzes do século e que consegue assimilar nessas luzes a parte sombria”. Dizendo de outra maneira, o contemporâneo é aquele que decifra o inverno no seu próprio tempo. Para isto, é preciso elaborar uma posição interior, uma maneira de ser no mundo, uma capacidade para poder falar e agir na primeira pessoa do singular. É isto que Kierkegaard elabora, incluindo essa ação sobre o plano da ética. Não é uma figura heroica que ele constrói, uma figura da exceção. É, antes de tudo, um homem ordinário, aquele que em nada se distingue dos outros, aquele que Kierkegaard compara a um conformista que fuma seu tabaco na janela. Ele é como os outros. E, entretanto, é justamente aquele a quem ele nomeia “o cavaleiro da fé” porque ele dispõe de uma capacidade interior, uma liberdade – recebida justamente na fé – que testemunha do singular. Uma ética para o inverno não possui uma forma genérica. Ela suporá, em todo tempo, a resposta de cada um, um por um, único após único.
Jean-Daniel Causse